sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Onironauta

Não houve um dia, de que me recorde, em que tenha acordado sem memória do que vivi enquanto dormia.
Na minha opinião, os sonhos são muito mais do que simples recursos do inconsciente, misturados com desejos e acontecimentos do quotidiano. Para mim, sonhar é uma segunda vida, rica, palpável e real. Achamos que esta vida em que estamos acordados fisicamente, é a única e a verdadeira, e que os sonhos são apenas viagens da mente e algo a desvalorizar, mas pensemos, enquanto sonhamos, as coisas não são também reais? Não conseguimos tocar pessoas, objectos, sentir cheiros, ouvir música, fazer amor, nadar? Porque seria, então, essa vida falsa, e esta a única e real? Parte de sonhar tem a ver com o tal inconsciente, mas acredito também que atravessamos dimensões, que viajamos em astral e que somos mais totais do que somos nesta fisicalidade quotidiana, porque estamos livres do corpo e de limitações.
Não sei quando começou exactamente, mas a dada altura, passei a ter sonhos conscientes. Inicialmente só acontecia nos sonhos assustadores. Sempre que tinha um pesadelo, sabia automaticamente que estava a sonhar e forçava-me a acordar, arregalando os olhos no sonho. Sempre funcionou. Isso fez-me entender que parte de mim sabia que estava noutro lado, e que, talvez, pudesse brincar com isso. Quanto mais pensava no assunto, mais consciência ia tendo, e comecei a explorar mais, escolhendo o que ia fazer (ou com quem ia fazer, sim... ahahahah). O que reparava é que quando as coisas começavam a ficar mais emocionantes, acordava. Li depois, algures, que, quando sonhamos com algo intenso, o ritmo cardíaco aumenta e, por isso, acordamos. Eu não queria acordar! Li alguns livros, e descobri alguns truques que ajudavam a prolongar a consciência no sonho e continuar a dormir. O que funcionava melhor comigo era esfregar as mãos. Não tinha a noite toda sonho consciente (nem sei se queria), mas todas as noites, nalguma parte, eu sabia que estava a sonhar e brincava com isso.
Não sei se acontece a muita gente, mas há dias, em que os sonhos são tão intensos, que ficam colados a mim o dia todo. Acontece-me, por exemplo, envolver-me com alguém durante os sonhos, e ficar ligada à pessoa durante umas horas depois de acordar. Prolonga-se um pouco do amor/atracção que se viveu e só desvanece passado um tempo. Não consigo controlar, trago um pedaço daquele mundo colado a mim, como um véu ligado às minhas costas que me faz viajar, durante o dia, entre os dois reinos.
Nos últimos tempos, tenho tido das viagens mais intensas da minha vida. Tudo daquele lado é mais mais rico, mais glorioso, e, se antes, tinha mil sonhos, agora, tenho só alguns, mas muito mais longos. Às vezes, durante a noite, vivo a história duma vida...
 
 
Onironauta, termo criado por Stephen La Berge na Universidade de Stanford em 1980, é o explorador do sonho1 , é aquele que consegue dominar o sonho e assim conduzi-lo da forma que desejar(do Grego Oniro óneiros, Sonho + Nauta náutés, navegante/explorador).

Bater nos nossos filhos

Aqui está mais um comportamento repetido automaticamente, por grande parte dos pais (arrisco-me dizer, pela maioria), sem questionar. Só porque apanhamos um dia, toca a perpetuar o comportamento, sem perder um segundo a pensar no assunto.
Entre os pais que batem, há os que batem por tudo e por nada, usando as mãos e um sem número de objectos famosos, e há os que se colocam acima destes, falando da "palmada na hora certa", dada de forma "mais estratégica". Estes últimos gabam-se de não reagir a impulsos, mas sim, de o fazer de forma planeada e, por isso, mais eficaz. Meus queridos, não vejo diferença entre uns e outros, na minha opinião, todos os pais que batem, seja de cinto, seja com as mãos, seja "uma palmadinha na fralda", seja um arraial de porrada, cometem um erro grave! Sim, depois podemos discutir o grau de gravidade, segundo a duração da violência ou a força com que se aplica, MAS bater é SEMPRE errado.
Vejam só a vossa incoerência ao baterem nos vossos filhos, por estes terem batido num colega da escola ou num irmão. Vocês ensinam (pensam que ensinam) os vossos filhos que não devem bater aos amigos, batendo-lhes! Conseguem parar um momento e perceber no quão confuso isso será para uma criança?
Vamos lá ver. Pune-se, critica-se, examina-se em rodas de amigos, na televisão, nos jornais, qualquer acto de violência praticado entre dois adultos. Se um homem bate a uma mulher, ai jesus, que coisa grotesca; se um filho bate a um pai, UI, é caso para ser internado imediatamente; se dois amigos resolvem andar à chapada, que vergonha, que vergonha; mas, se um pai, adulto, com mais de metro e meio, resolve bater numa criança, indefesa, pequenina, uau, isso merece aplausos. Como é que podem aplaudir e apoiar a violência aplicada aos seres mais indefesos e inocentes? Como podem criticar a violência entre dois marmanjos adultos e glorificar a violência praticada contra um bebé ou criança? Como dizem amar os vossos filhos acima de tudo, e escolhê-los como únicas vítimas da vossa agressão física? Se uma mulher apanha do companheiro, sai de casa, chama a polícia, faz um escândalo, ou esconde-se, procura grupos de apoio. Uma mulher é maior do que uma criança, conseguem compreender isso?? Se uma mulher disser ao parceiro "não me apetece arrumar o meu quarto" e ele lhe responder com um estalo na cara e um grito "arruma já!", achamos isto terrível, mas se trocarmos a mulher por um filho, e o parceiro por um dos pais, achamos isto educativo! Por favor, PENSEM! Não é porque os nossos pais, tios e vizinhos o faziam, que temos de repetir tudo religiosamente. Interroguem-se sobre cada um dos vossos comportamentos. Quais é que são realmente válidos? Quais é que são repetidos apenas?
Olhem para os olhos dos vossos filhos, olhem para os vossos filhos, encolhidos, a protegerem a cara com as mãos, quando vocês se aproximam a gritar e com a mão levantada. Querem mesmo que os vossos filhos tenham medo de vocês? Querem que cresçam como adultos amedrontados, frustrados, que acreditam que apanhar daqueles que amam, é válido e positivo? Eu torço-me toda quando ouço um adulto dizer "olha, eu apanhei e acho muito bem". Como é que chegamos ao ponto de acreditar que realmente merecemos ser vítimas duma agressão por parte daqueles que nos dizem amar mais?? Não digo que se revoltem contra os vossos pais, digo que os perdoem.  Mas vão ainda mais longe, quebrem o padrão, usando o afecto como forma de criar e ajudar os vossos filhos. Leiam sobre disciplina positiva, compreendam que cada fase etária traz desafios e que há estratégias para lidar com eles da melhor forma, sem dor, sem terror. Compreendam que não bater não é o mesmo que permitir tudo e mais alguma coisa. Dar apenas amor não é o mesmo que permissividade desenfreada.
Querem que os vossos filhos arrumem o quarto porque gostam de o ver arrumado, porque gostam de ajudar, ou porque têm medo de vocês?
Transformem os vossos comportamentos, transformem as vossas vidas. Mamãs, ouçam o vosso instinto, olhem bem para os vossos filhotes, o que querem ver nos olhinhos deles? Amor, doçura, cumplicidade ou um amor misturado com terror, com rancor?
Comecem pelo dia de hoje... <3

Partilhar cama com filhos

Aqui, a cama partilhada, ganha outros contornos e profundidade (ver o meu post anterior "Partilhar cama com parceiros"). Eu não sou pelo sono partilhado com parceiros só porque é esperado, principalmente quando é claramente desconfortável e não permite um sono relaxado e reparador. Mas sou a favor do sono partilhado com os filhos, enquanto eles assim o desejam e desde o dia em que nascem. Dormir com as crias facilita uma amamentação prolongada e feliz, transmite serenidade, permite-nos estar atentas a qualquer reacção que o bebé possa ter.
Durante a gravidez li bastante sobre attachment parenting, termo que descreve uma parentalidade consciente, próxima, fiel à nossa natureza, que abraça o sono acompanhado, o babywearing (andar com os bebés no pano/sling/manduca), o toque constante, a amamentação em livre demanda com desmame natural. Esta forma de parentalidade, intuitiva e natural, é muito diferente daquela que é praticada pela maioria dos pais nos dias de hoje (pelo menos nesta sociedade), mais  fria, que faz uso de carrinhos, berços, parques, cadeiras de balanço e outros objectos que distanciam as crianças de nós, que grita frases como "os bebés precisam de aprender a ser independentes" e "os bebés têm manhas". Não digo que os pais que dão colo o dia todo, amem mais os filhos do que aqueles que defendem que "deixar chorar é bom, para abrir os pulmões e se habituarem a desenrascar sozinhos"(e outras pérolas terríveis como esta). Não é questão de uns amarem mais do que outros, mas sim de uns estarem mais perdidos do que outros, nisto da consciência sobre o que é um bebé e do que ele necessita. Ouço, muitas vezes, a frase "todas as mães sabem o que é melhor para os seus filhos", mas por mais que a repitam, não a torna numa verdade. A maioria das mães NÃO sabe o que é melhor para os seus bebés. Se uma mãe acha que deixar um bebé chorar é bom, se uma mãe acha que pôr um recém nascido a dormir sozinho num quarto isolado é bom, ou que dar leite em pó é maravilhoso, ou que bater e dar aeron é positivo, desculpem, mas NÃO sabem o que é melhor para os seus filhos. Porque todos os bebés são diferentes, é verdade, mas há coisas de que todos os seres humanos precisam, sem excepção! Todos os bebés precisam de afecto, presença da mãe, leite materno, um abraço que os conforta quando têm medo ou dor.
Grande parte das mães, não se dá sequer a possibilidade de ser simplesmente mãe, pede aos outros que a ensinem a sê-lo. Pergunta ao médico onde por o filho a dormir, pergunta à vizinha como alimentá-lo, pergunta à cunhada como ensiná-lo a ser autónomo, acredita na opinião de quase toda a gente, ignorando completamente aquilo que está dentro de si.
Quando o meu filho nasceu e me vi com aquele serzinho no colo, percebi, numa onda de um amor tão novo e avassalador, que dormir com ele, pegar nele, acalmá-lo no choro, não precisava de me ser transmitido em livros ou comunicado por amigos para que eu quisesse fazê-lo, simplesmente estava ali, claríssimo dentro de mim. Eu sabia que estar perto dele é o que devia e QUERIA fazer, sabia que deixá-lo chorar me cortaria a alma e que o meu leite e colo o acalmariam nas horas mais difíceis. Eu não soube disto por ser mais inteligente ou iluminada do que outras mães, que acham que dormir na cama dos pais é péssimo ou que pegar ao colo quando choram é um hábito terrível, soube disto porque me permiti OUVIR, porque me permiti CONFIAR, porque me permiti entregar-me nesse novo papel da minha vida. E hoje, passados 3 anos, posso ver como esse caminho da parentalidade natural e consciente, é o único que poderia ter seguido. É o único caminho que pode ser seguido a quem se permite ouvir, a si e à sua cria.
Amo-te, meu filho, meu professor, meu amigo, meu amor <3

Partilhar cama com parceiros

Há certos comportamentos que a esmagadora maioria dos casais assume automaticamente, quando decide morar junto. Um deles é ocupar, sem questionar, a célebre cama de casal, mal compram ou alugam casa. A partir daí, dormem todos os dias juntos. O sofá ou a cama de visitas, só é usada quando há uma discussão, quando um precisa de espaço (porque se magoa ou fica doente) e pouco mais. No resto do tempo, o esperado é partilhar cama, quer o parceiro ronque como uma betoneira, quer o parceiro roube mantas, empurre a noite inteira ou urine na cama. Não importa, usam-se tampões nos ouvidos, dorme-se de robe e com 2 pijamas, dorme-se encolhidinho num cantinho da cama ou põe-se plástico debaixo do lençol. Casal dorme junto e ponto final. Se a namorada se queixa e sugere que podia dormir sozinha, o parceiro diz "que se passa? Já não me desejas??". Se o marido sugere umas noites no sofá, a esposa responde  "ai que tu tens outra e já não me amas". E pronto, toca a dormir junto, todos os dias, às vezes uma vida inteira, porque é assim que os casais devem dormir. Quem disse que devem? Só porque os nossos avós o faziam, porque os amigos o fazem, isso tem de ser seguido, sem questionar??
Desde cedo que tive discussões com parceiros por dizer que não me via dormir todos os dias acompanhada. Porquê misturar tudo? Porque é que a cama tem obrigatoriamente a ver com amor ou atracção sexual? Porque não posso eu amar loucamente alguém, e amar loucamente dormir sozinha?
Se há casais que adoram dormir juntos todos os santos dias, e sentem que o sono é reparador assim, óptimo! Mas se acham que dormir sozinho é uma ideia deliciosa, conversem sobre isso. Em vez disso ser motivo de zanga, pode ser motivo para aproximar-vos ainda mais. Eu sinto mais desejo por alguém que não está sempre perto, do que alguém que está sempre colado a mim. Dormir acompanhado de vez em quando? Maravilhoso! Mas forçar um sono acompanhado, só porque sim, ou porque se tem medo de ferir os sentimentos do parceiro, não. Se queremos uma relação sólida e verdadeira, temos de ser aquilo que somos, sem vergonha, temos de assumir e falar. Se eu disser a um namorado que quero dormir sozinha e isso o magoar, fui eu que o magoei ou é ele que tem que desconstruir a ideia de que dormir acompanhado é sinónimo de amor? Se os casais falassem abertamente sobre tudo, haveria, quase sempre, um dos elementos da relação que diria que preferia, pelo menos de vez em quando, dormir sozinho, não tenho dúvida disso. Normalmente é o parceiro mais inseguro, mais carente e mais ciumento, que quer estar sempre colado e reagiria mal caso o outro sugerisse fazê-lo... E isso diz tanto sobre vocês e sobre a relação que têm. Querem mesmo viver uma relação em que são metade de vocês, quando podem ser vocês na totalidade, numa relação renovada?